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Um espaço para se Pensar o Mundo

Joao bosco de Oliveira

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Cronista, escritor bissexto, aprendiz de poeta...rs. e leitor voraz.
July 07

Sonâmbulos Pensamentos

Sonâmbulos Pensamentos






Vejo-te em miragem trêfega, a caminhar em praia ensolarada, um sol flamejante, lascivo, invade o meu instante, a beijar, possessivo, a textura pêssega de tuas pernas, tolhidas numa avarenta saia axadrezada.

Meu perdigueiro farejar te segue, sonambulando em noites sem dormir, a mitigar o faltar de teu abraço neste torturante travesseiro, inocente e infeliz prisioneiro de minhas agruras.

Trago-te para perto de mim, permitindo-te unguentar meu mendicante corpo com a tepidez de tua voz, predecessora e algoz de tua ansiada presença. Meu viajeiro pensar sentencia, nada lisonjeiro: isto é o umbral da loucura, doença que não tem cura.

Nem sequer dou-me ao trabalho de contestar, contento-me em agarrar, como o cavaleiro à sua armadura, como se apega a terra desejada um retirante, este sentir dissonante, este querer destoante, esta forma de amar desmesurada.

Pendulando em minha retina, a caraminholar com teus gestos de menina, os teus mimos, tuas momices, a marionete a balouçar. Ébrio, desmemoriado de teu brincar, em minhas lembranças tento segurar tua fugidia aparição.

Como um títere desnorteado, um bebê indefeso, num chorar convulsionado, perco-me das cordas, sucumbindo ao próprio peso, largado como brinquedo jogado, a esperar, em dias de céu aberto, tua vinda - minha ressurreição.

Minha alma cansada, de caminhos e exílios alquebrada, enxerga ao longe uma pálida luz a bruxulear; ergue os olhos, aflita, entoa um mantram, contrita, colando o rosto no áspero chão:

“-Que se ponha fim a minha jornada, que este meu desesperado cantar alcance a minha distante amada, oh seres divinos, transmutai o sofrer deste peregrino; dai-me a beber do vinho mais fino – e deixai que esta luz que se anuncia preencha o vazio de meu coração”.

O sentimento de Amor não é para ser entendido, posto que amar nos faz sentir como perdidos, vistos como loucos varridos, a navegar por mundos desconhecidos, por quem dele não se apetece.

Todavia, quem se atreve a longe jogar suas algemas, fugindo da insignificância de pétreos teoremas, supre o seu viver de substância, descobre que amar não é utopia,

Que no Amor seu espírito se expande, solta-se da pequenez, aprendendo a dar vez ao grande, banha-se nas águas da altivez, transmutando momentos de aparente tristeza em páginas de beleza – em poesia.

Deixa esquecida no pó da terra a antiga e enrugada casca de tartaruga, abdica dos antolhos inúteis, arquivados ao lado dos saberes fúteis, e enfim, alma liberta, faz uma estonteante descoberta: falar de amor equivale a rezar com ardor a mais poderosa prece.



Garimpar palavras para se falar de amor é tarefa das mais ingratas, dado que amor mais se sente, mais se vive, e dificilmente conseguimos expressá-lo com palavras. A cada poesia tento encontrar a melhor maneira de alinhavar palavras que constituam versos capazes de se aproximar minimamente deste sentimento grandioso que é o amor. Esta poesia é só mais uma tentativa rudimentar de expressar em palavras o que se sente quando se é invadido pelas legiões de Eros.


Vale do Paraíba, manhã do primeiro Sábado de Julho de 2009


João Bosco (Aprendiz de poeta)

Supernova Enlouquecida

Supernova Enlouquecida (Em Construção)




Uma Supernova, desgarrada de seus pares, dilacerando-se em estonteante orgasmo,
Desequilibra a univérsica paz, rompe, trôpega e atabalhoadamente, o trêmulo armistício,
Estabelecido a duras penas, entre o pecado e o penitente, entre o louco e o hospício,
Gerando insensatamente, incontáveis multidões de sóis em seus múltiplos, desvairados espasmos.

Filhos de tal engendramento, sóis coloridos a reinar em retinas buliçosas de indecisa menina, entretida em pensar desconexo,
A vaguear, planeta perdido, na Via Láctea dos sonhos de um alucinado poeta, dos deuses feito estafeta,
Espargindo na Terra cósmicas miragens, surrupiadas em lunáticas paragens, galopando a cauda fugidia de um cometa
Incerto em seu hebdomadário trajeto, colocando à prova, cometa, menina, poeta e Supernova, que nem sempre é certo...
...que a via adequada a ligar dois pontos será sempre um caminho reto.



Nossa mente racional não consegue lidar com o Incriado, visto que foge totalmente a nossa apreensão lógica, tampouco nos interrogar sobre o que havia antes de nosso próprio existir. Como para mim não servem os velhos modelos apresentados, deixo a minha mente viajar pelo cosmo infinito e assistir o magnífico espetáculo da explosão de uma Supernova.


Vale do Paraíba, madrugada da primeira Terça-Feira de Julho de 2009


João Bosco (aprendiz de poeta)


Olhos nos Olhos

Olhos nos olhos

Queria falar lindamente, em versos bem diferentes, de como é sentir o Amor.

Busquei apressadamente, em todos os dicionários, melhorar o meu vocabulário.

Fiz votos secretos, fiz figas, andei por rimas antigas: achei e guardei num escapulário, com zelo de Santo Sudário,

O teu olhar indiscreto, o teu sorriso sem jeito, o beijo nos teus cabelos e o canto do beija-flor.

Uma orquestra de guinés, em seu alegre alarido, faz coro prá minha toada; bambus engalanados, ypês floridos, em festa, aves em busca de ninho.

Um vento frio de Inverno, chuva querendo chegar, embaixo do caramanchão, você de olhos postos no chão, dá liberdade ao sonhar.

Levanta a cabeça a medo, embarco no teu olhar nadando por teus segredos; encontro uma dama reclusa, agindo de forma confusa, entre o se dar e negar.

É hora de ir embora, vou caminhando ao teu lado, hábito não consolidado, guardando teu vulto comigo, beijo-te de leve a orelha - já não estou mais sozinho.

O véu da noite acoberta uma conversa mais solta, em meio a propostas loucas, usas negaças bem poucas, despe-te de tuas sacras roupas, ousas prazer mais completo.

Isto me leva a pensar: talvez o distanciar, de modo paradoxal, traga você prá mais perto, torne teu amar mais real, teu beijo muito mais quente, tua voz bem mais sensual.

Não busco analisar por que te portas assim, tenho de mim para mim, que esta tua forma de ser, é receio de bem querer, de quem se esconde no meio e evita atingir o final.

É sabotagem cruel, esconder debaixo de véus, a vontade de ser feliz, trocar o pote de mel por uma taça de fel, deixando o amor por um triz; é uma escolha infeliz, um rumo nada correto.

Tenho para mim que a vida é tão cheia de imprevistos que não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar oportunidades de sermos felizes, de adiar para um imponderável Amanhã o que está em nosso alcance realizar no Hoje. Sufocar o desejo de viver dentro de nós equivale ao cometimento de um suicídio lento e contínuo, uma negação inaceitável de nossa mais importante missão na Terra: viver com plenitude.

Vale do Paraíba, madrugada da primeira Segunda-Feira, Julho de 2009

João Bosco (Aprendiz de poeta)
July 01

Síndrome da Lagarta




Quando penso em chorar, reflito e vejo que o rio formado por minhas lágrimas impedir-me-ia de prosseguir

Então, incontinente, apesar de um relutar descontente, engulo o meu choro convulso, lanço mão de mais um sonho avulso

E encaro a madrasta vida, esta senhora desmazelada, desenxabida, que quer por quer nos fazer entender, à pulso

Que não se deve ajuda esperar, que só nós temos o condão de nos transformar, que o que precisamos está dentro de nós, que tudo aquilo que sonharmos, se quisermos, podemos conseguir.

Não sou amante de lugar-comum, já há incontáveis eras aprendi que o carro da mesmice tem o destino de lugar nenhum – tenho aversão a apatia.

Este cavalheiro, taciturno a me contemplar enquanto escrevo, não tem semelhança comigo, vigia-me, o sanhudo, denotando ódio mortal – é o meu pior inimigo.

Conhece-me melhor que ninguém, por mais que eu tente não há como este algoz ludibriar, só por poucos instantes toma ares de amigo, junta-se a mim, ao meio-dia, protegendo-me do perigo.

Nunca sei de onde vem esta avalanche de descontentamento, que quando chega, sempre de inopino, traz em seu bojo terríveis questionamentos: o que fiz de meu destino? O que quero para os meus dias?

Quanta raiva sinto quando me alço a arquibancada, ao me ver algemado, como elefante manietado por riscas de giz, sabotador de mim mesmo, degustador de dejetos, projetos que só me fazem infeliz.

Mas romper este casulo de inércia exige mais que simples devaneios; é preciso muito querer, prover-se de meios, evitando ficar estirado na estrada, como apenas mais um daqueles de sina malfadada

Que marionetam pelas cidades, zumbizando seus fracassos, a mastigar entredentes, estremunhados, sonhos não realizados, amores apenas tocados, partícipes de refeição lauta, da qual estão sempre em falta, por só provar da entrada.

Um dia, quando finalmente aprender a chorar, farei um acordo com minhas lágrimas, dando como garantia, de minhas barbas um fio: que elas formem um rio – eu aceito. Mas que me conduzam com jeito à Pasárgada Gorda, onde, como borboleta, voarei feliz.

Ao assistir uma troupe de comediantes encenando uma peça nas ruas de minha cidade, veio-me à mente um chamamento do qual não se pode abdicar: é preciso ir ao povo comunicar o que sabemos fazer, falar das coisas que descobrimos, mesmo que o povo pareça não entender o que queremos dizer - mesmo assim não temos o direito de negar ao povo o que de melhor sabemos fazer. Assim disse um outro vate: “O artista tem ir até onde o povo está”.

Vale do Paraíba, manhã da primeira Quarta-Feira de Julho de 2009

João Bosco (Aprendiz de poeta)

June 25

Memória de pele ((Ainda em construção...)

Memória de pele ((Ainda em construção...)



Minha alma, hoje alquebrada, por tantas decepções vergastadas, redime-se: sente-se deveras premiada ao lembrar dos passeios feitos com você, sem juízo, sem nada além de um sorriso, acompanhados pelo cheiro oloroso da dama da noite.

E, vindo através do vento, os débeis acordes daquela música que nos fazia juntar as cabeças, esfregando nossos cabelos, rindo de nós mesmos como tolos deliciosamente apaixonados.

Os Néscios e Pascácios dizem que o tempo não volta atrás. Mal sabem esses seres tão formais, que um simples aspirar de teu perfume, traz-me imediatamente ao lume os nossos beijos trocados,

Tão nítidos, tão reais, que te vejo disfarçada na mulher que me acena da calçada oposta, na atendente da loja de conveniência, até no rosto de desconhecidas atrizes, sombras a me perseguir como uma não cumprida penitência, marcas gravadas na pele como antigas e doloridas cicatrizes de açoites.

João Bosco (Aprendiz de poeta)

Moldura amorosa

Moldura amorosa






Teus cabelos, macios, cheirosos; teus olhos de sonhos, teu rosto risonho e teu envolvente abraçar,
Formam conjunto perfeito, maravilhosa armadilha; tu não andas, desfilas – a arrastar o turbilhão de meus sentidos em teu corpo pousado.
É como fogo cruzado do qual não ensejo fugir, quando te vejo sorrir ao comigo falar, a vida fica mais leve e o mundo menos pesado.
Poder partilhar com você momentos bons e ruins, é bom demais para mim, é hora mais preciosa, deixar tua voz cariciosa meu corpo todo inundar.

Quando me deito ao teu lado, percebo teus olhos fechados, as narinas alertas, a farejar minha presença, deixo-te enroscar em meu corpo com suave firmeza, leveza e aprumo.
Com manhas felinas, a encontrar os espaços, com pernas e braços num duelar divertido, sem vencedor nem vencido, até a calma chegar; levo minha boca a beijar a tua nuca macia.
O calor de nós dois misturados num só, faz dispensar o lençol, inútil adereço nesse brincar com tua pele, sem fim nem começo, crio jóias sem preço ao contemplar os teus seios, quais ilhas perdidas - oásis de fantasia.
Uma náufraga fome me toma de assalto, quando em sobressalto chego em teu ventre, tranqüilo, sereno, a ocultar o vulcão, minha língua afoita prova de teu veneno, e se entrega, cativa – beduína sem rumo.

Esta é a moldura encantada que construí prá nós dois, tem a altura dos sonhos, e a largura do antes, do agora e do depois, perfumada com almíscar de Madagáscar.
Servirá como ninho prá tua sagrada imagem abrigar, quando em noites invernais, sem olhar para trás, deixando-me sozinho, fores outras plagas visitar.
Ter-te-ei sempre ali, em lembrança guardada, como penhor da bonança que me trouxeste prá vida; como um cego confesso: a luz de teus olhos me fez enxergar
A beleza existente em coisas pequenas como um canto de pássaros, ou chuva na vidraça, o voar majestoso e a alvura da garça; o fazer poesia e viajar na utopia de sempre encontrar motivos prá amar.


Amar é: acordar junto de quem se gosta; saber que o sentimento de amor tem de conter absoluta reciprocidade...

...amar também é: entender que temos de ser para quem amamos, além de amante, irmão, companheiro e amigo, dar sempre a certeza de que temos para a nave do Amor, via de acesso com alta prioridade.

Vale do Paraíba, noite da última Quinta-Feira de Junho de 2009


João Bosco (Aprendiz de poeta)


June 21

Amor Diamante (Agalma)

Amor diamante (Agalma)

Ao ouvir tua voz invadir minha cabeça com promessas e juras, umas candentes, outras puras, vem um mar de desejos inundar o meu cais, aguçar meus sentidos.

Então me deixo enfeitar por este som tão amado, que me faz sublimado ao poder te escutar, enfim saciando minha fome de tua ausência no sabor de tua boca.

Os teus braços me envolvem de um jeito só teu, de um nunca mais acabar, de me fazer mais menino, sem juízo, sem tino, te propor ao ouvido minhas fantasias mais loucas,

Pensadas nas horas de vontade algemada. Hoje, aqui e agora, te visto de beijos, despindo teus claustros; ante este altar tão sagrado, qual viandante cansado, prostrar-me-ei de rastros – a sorver teus gemidos.


Quero tatear tua pele com meus dedos em chamas, sentir os teus arrepios inquieta na cama, me perder em teus seios intumescidos, nada deixar esquecido, e os fios de teus cabelos, um a um afagar.

Com cuidados de monge ao reverenciar uma Dakhini, beijarei os teus olhos com carinho e cuidado, ao brincar com teu nariz, dou-te uma fruta a provar,

Compartilho do gosto desse gostoso beijar. É enternecedor o teu ar de surpreso prazer. Já nem sei o que fazer, perco-me todo em você – não consigo parar.

É uma sensação diferente, estarmos nós dois a sós. É um completar de mim mesmo, é amar sem sofrer, numa troca constante de namorado e amante, um amor diamante num perene lapidar.


Minha barba a raspar por teus pelos mais crespos, desperta desejos, que se queriam insuspeitos, ocultos, secretos. Dize-me então entredentes, num arfar apressado, a me beijar o pescoço, com olhar tresnoitado:

-Eu já posso morrer, pois nada me foi negado. Dou-te um abraço mais quente, como a te proteger de qualquer desatino, de destino cruel que te roube de mim, me deixando sem Norte.

Descobri com você o Nirvana sonhado, o amor de potência em ato transformado, sentido, vivido; com alegrias e tristeza, amargura e beleza, com altos e baixos, e tal qual uma Fênix, ressurgindo mais forte.

Não costumo pensar no que me trará o Amanhã, mas sou grato ao Hoje por ter me dado você, meu amor, meu querer, minha mulher tão almejada - em Pasárgada nos espera o nosso leito dourado.



Tenho para mim que a junção do carinho com o desejo forma a poção encantada do Amor. Poder sonhar ter nos braços, com fogo, com fome, com paixão, e acarinhar, sem pressa, demoradamente a quem amamos, com requintes de degustador que prova vinho de safra única, é realizar, enquanto humanos, o que só aos deuses é permitido...

... viver no Paraíso.


Vale do Paraíba, manhã do terceiro Domingo de 2009

João Bosco (Aprendiz de poeta)

Amores Virtuais

Amores virtuais







São intensos como chuva de verão, e ágeis tal qual fogo-fátuo no céu.
Ardentes como chamas em árvores verdes – fazem fumaça, mas não queimam.
Ameaçam explodir, mas não contém o Sentir; como mariposas em volta da lâmpada só rodeiam.
Um amor virtual, sem transição para o Real, é força em potência não realizada, contaminada por apatia generalizada.
Caminhos tortos que levam de lugar nenhum ao Nada.
São amores plasmados, de seres amedrontados; nunca amor de pessoas reais.
São amores frios, perdem-se no vazio, em meio a um mar de declarações que se querem imortais.
Têm suas regras próprias, todas girando em torno de uma visão de vida utópica - umas prá menos, outras prá mais
É um amar na fantasia, confunde João com Maria e não diferencia garapa de mel.
Vive a ilusão de mensagens enviadas, navega em mar de ouropel.
Esses amores virtuais não têm base na realidade,
Seus alicerces são fundados no terreno da banalidade.
Em um Carnaval de desencontros, ao amanhecer do desencanto, Arlequim e Colombina se despem da purpurina numa Quarta-Feira cinzenta.
E as mensagens de amores virtuais, tão iguais em sua aparente diferença, ainda mais se assemelham a um conjunto de faces macilentas.
Voam pelos ares, levando a ansiosos corações, as mesmas emoções contidas naqueles papéis varridos numa manhã qualquer, por uma enfastiada mulher limpando uma calçada poeirenta.




A internet, com sua imensa capacidade de unir pessoas, trouxe também, para o palco das relações humanas, a necessidade ainda maior de nos sentirmos queridos, amados, fazendo com que embarquemos sofregamente nesse admirável mundo novo, verdadeira caixinha de Pandora. Nesse embarque buscamos encontrar a qualquer preço o amor de nossas vidas. Em cada foto que surge diante de nossos olhos pode estar a Bela Adormecida dos nossos sonhos mais afoitos, e em outra, certamente se encontra o Príncipe Encantado tão almejado pelas meninas não menos sonhadoras. Com muito equilíbrio e cuidado a internet muito tem a contribuir para cada vez mais aproximar pessoas, tornando possível fazer um amor virtual se transformar em real.


Vale do Paraíba, noite da terceira Sexta-Feira de Junho de 2009
June 19

Lembranças de um tempo encantado

Lembranças de um tempo encantado




Um alpendre todo em madeira, em frente a um verde gramado, enfeitado por cajueiros formando um reino encantado.

Nos mangueiros, bois a pastar, caprinos em profusão, ovelhas lanosas, tranqüilas, na sombra a fugir do sol.

Calangos e lagartixas corriam por todo lado, e lá no fundo da mata, ouvia-se a alegre cantata da rolinha fogo-pagô.

Na majestosa cancela, um assum-preto empoleirado, mostrava pro visitante que ele havia chegado à bela fazenda Pau Preto, lugar dos mais afamados.


Como era bom o ser guia, à frente do carro de bois, embalado pela sinfonia que de suas rodas provinha, num chorar açucarado.

Zé Migué carreiro rijo, firmava pé no batente, domava touro valente e punha canga nas juntas, prá andar emparelhadas.

Trazia carga pesada com três juntas de bois taludos, prá fazenda abastecer de lenha e farinha torrada.

Quando chegava a tardinha meu tio me requisitava pros caprinos arrebanhar: de muito longe eu ouvia, o chocalho do desgarrado.


Ah quantas saudades carrego, dos tempos em que galopava atrás de boi fugitivo, pelos calumbis adentro.

Não tinha medo de espinho, nem mesmo de cobra jibóia; mas temia de verdade, o riso do Curupira e o cantar da Caipora.

Ouvia histórias de Onça, de aparições encantadas, contadas à luz das fogueiras em noites enluaradas, em que, pasmados, não víamos o lento passar das horas.

Hoje distante de tudo, em selva de pedra perdido, recorro à memória banzeira. – Minha fiel companheira vá e me traga, ligeira, não deixe ser esquecido – os meus mais lúdicos momentos.



Entre os meus sete e os dez anos de idade sentia que o mundo tinha tonalidades muito mais vivas, sabores bem mais peculiares do que os que hoje consigo perceber. Ainda faço a minha coalhada do jeito tradicional, como era feito lá na fazenda Pau Preto. A diferença é que aqui não disponho da cabaça prá armazenar o leite, a qual substituo por uma vasilha de alumínio. Quando pronta, o exótico sabor me faz regressar às manhãs em companhia de meu tio, Joãozinho Curvelo, antes de darmos início aos trabalhos diários da fazenda. Este tempo todo especial encontra-se escrito em letras de ouro no livro encantado de minhas recordações.

Vale do Paraíba, noite do segundo Domingo de Junho de 2009

João Bosco (Aprendiz de poeta.)

June 14

Diálogo com os Peixes

Diálogo com os peixes


Qual será o comportamento tido como adequado, indicado prá que se possa conviver harmoniosamente com quem nos é diferente - em paz?

Aquele modo de vida que nos apraz? Ou então será uma vida submetida aos padrões dos que veem como normais?

Como copiar do Outro um vejetar que não queremos, posto que nos é suficiente o que temos, e o Outro nem sabe direito o que faz?

Se é ele que vive uma Moral deturpada, se debatendo com normas ultrapassadas, defendendo encarniçadamente roupagens que não servem mais?



Quem ousa adquirir noção do que é melhor para si, enfrenta lutas titâncias para defender sua maneira de agir e pensar.

Divulgar então - que nem tente.Os riscos não serão poucos; de barato, imediatamente será chamado de louco.

Não tendo mais que idéias, será pelos mortos-vivos ridicularizado. Este é o preço a pagar por liberdade pregar: o o encontro de ouvidos moucos.

Também de gente passiva, feliz com as migalhas amealhadas, que reage de forma agressiva ao ter que o espelho encarar.




Quem desafia tais tiranos, sai com certeza arranhado; sente-se em um canto acuado e questiona seu jeito de ser.

Percebe que todos os tempos, quem pensou diversamente da manada a pastar na grama, mansa e tranquilamente, foi perseguido e odiado.

Não caberiam os relatos, de tantos que foram os dramas, o Homem, normal, comporta-se igual ao rato, se refestela na lama.





Agride a quem tenta ajudá-lo, de tanto que a mudança o assusta; o raciocinar muito lhe custa - prefere continuar algemado.

Soa triste, mas verdadeiro: Sócrates, Bruno e Ghandi não foram os primeiros; também não serão os últimos a ser consumidos nas chamas

Da ignorância, da baixeza e do egoísmo, queimando qualquer chance do altruísmo vir um dia ser entendido e aceito como a melhor do ser humano viver.

off-line

Em uma época de minha vida, quando editava um pequeno jornal no interior do estado de Sergipe, usei, em um artigo, a expressão "caminhar sobre o fio da navalha" para exemplificar as dificuldades em se transitar entre pessoas com propostas de vida opostas e dificilmente conciliáveis. De lá para cá muita água rolou por baixo da ponte de minha vida, carregando, em seu contínuo fuir, coisas boas e ruins, mostrando-me que as águas seguem sabiamente o seu curso...



...e o fio da navalha permanece afiado em meu caminhar.




Vale do Paraíba, manhã do segundo Domingo de 2009




João Bosco (Aprendiz de poeta)
May 30

Monólogos

Monólogos

Não saberia definir

Por ti o meu sentimento

Sonho contigo ao dormir

Ao acordar, é teu meu primeiro pensamento.

Não sei aonde vai dar

Essa estrada em que o nosso amor trafega.

Também não parei prá pensar

Se sou eu que me dou, ou se és tu que se entrega.

Mas algo em mim é patente, e guardo com muito carinho.

Digo em alto e bom som, sem mesmo censura temer:

Falar contigo é tão bom, mesmo eu estando sozinho

A conversa flui consistente, como um riacho a correr.

Vejo-me falando contigo, quando algo me atormenta

Sei que me escutas e respondes, às questões quando te chamo

Preenchemos os vários hiatos que a vida nos apresenta

Quando tu choras, eu ouço: encorajo-te; confias - bem sabes o quanto te amo.

Recorro ao poeta chileno Pablo Neruda que diz que pessoas razoáveis não conseguem poetizar, acrescentando que os poetas, em contrapartida, jamais serão pessoas razoáveis. De mim mesmo, acrescento que o Amor, sentimento com base estabelecida no Coração, nunca caminhará confortável pelas estradas da Razão.

Vale do Paraíba, manhã da última Sexta-Feira de Maio de 2009

João Bosco (Aprendiz de poeta)
May 25

Meu horizonte sem você




Fico quieto, paralisado, diante deste teclado, sem saber o que posso, ou melhor, -- devo escrever.

Perto de mim tem um dicionário, mas nele não acho, entre tantas palavras, aquelas que melhor te façam entender

Que a vida é uma junção de eventos, que nem sempre escolhemos os melhores momentos, que nem tudo é possível prever.

O certo é que em toda essa barafunda, na qual nos atiramos, e em que a incerteza nos inunda – meu horizonte é negro sem você.

Já escrevi sobre tua inesperada chegada, sobre sua partida também. Do muito que descobrimos, do tanto que ainda há por saber.

Já provei do doce mel de tua esparsa presença, e brindei com fel a fartura de tua ausência.

Hoje, indeciso nesse emaranhado de palavras imprecisas, busco as que sejam menos nocivas, que mais tenham a ver com paciência.

Entretanto, persegue-me a mesma questão, acuado nas cordas de meu canto: ou o meu poetar é muito fraco, ou não encontro letras suficientes para dizer...

...o quanto meu horizonte é negro sem você.


Li uma vez em Schopenhauer, tido como um filósofo pessimista, que nós, os humanos, não sabemos lidar com a felicidade: o que sabemos, e suportamos, é experienciar intervalos de felicidade, já que vivemos em um mundo aonde o sofrimento é a tônica vigente.


Vale do Paraíba, manhã da última Segunda-Feira de Maio de 2009


João Bosco (Aprendiz de poeta)
May 18

Fendas abertas

Fendas abertas May 18, '09 11:10 AM
for everyone

Em noites angustiadas, dessas noites sem estrelas, despedaço-me em minhas vestes ensangüentadas de solidão.
Em vôo cego, insano parafuso, busco desesperadamente encontrar, num palheiro abstruso,
A salvadora e mágica agulha com a qual irei costurar as fendas deste meu Ser tão confuso.
Fendas por onde escapam em catadupas as mais insólitas questões, usurárias que de mim, em decisão temerária - fizeram usucapião.

Meu corpo-terreno torna-se, mediante tempestuosas dúvidas, fértil habitáculo de harpias sugestões.
Faz-se mister encontrar uma nova maneira de codificar o meu sentir, colocá-lo a salvo da sanha de ávidos ciclones e furacões.
Não mais lutar com os ferrenhos titãs que me corroem as entranhas, a disparidade de forças é tamanha que me empurra a tergiversações.
A fugidia e melíflua inspiração deixa-me abandonado no atol dos desesperados, guerreiros perdidos de outras revoluções.

Guerreiros de guerras perdidas, a quem honras não se prestam por doarem suas vidas por causas incompreendidas.
No vôo cego da noite, timoneiro da nave de meu torvelinho pensar, um mapa vou desenhando por terras desconhecidas,
Ainda por desbravar, formando capitanias, criando um novo alfaiate prá minhas fendas vedar. Compro uma passagem de ida
E espero o meu sol-navio irromper no mar da Aurora. Não há que haver mais delongas, os pássaros anunciam a hora – é um chamado prá vida.


A sensação angustiante de não ter respostas para as questões mais prementes, soa, para mim, como se pesadas algemas fossem colocadas em nossos braços, deixando-nos apenas as pernas em liberdade, num caminhar sem nada poder segurar.

Vale do Paraíba, noite da segunda Segunda-Feira de Maio de 2009

João Bosco(aprendiz de poeta)
May 04

Meu canto encantado

Meu canto encantado



Não é bem um canto físico, um desses cantos qualquer, um canto prá se encostar.

É mais um canto de alma, um canto dentro do canto, um canto prá me espalhar.

Um canto mágico só meu, um canto aonde me escondo de meu próprio procurar.

Um canto de quando eu menino, quando me via assustado, corria prá me aquietar.

Às vezes sonho acordado; estás em meu canto comigo, o sonho é tão real, vejo-te em meu canto sorrindo.

A tua entrada em meu canto, vem precedida de encanto, é como um sol se abrindo

Afastando as trevas da noite, iluminando a manhã, fazendo a vida mais bela – a Esperança surgindo.

Meu canto é meu refúgio, desses refúgios secretos, mas prá meu amor tão discreto, faço meu canto mais lindo.

Meu canto tem tanto atrativo que sempre nele me perco, de me perder sem me achar.

De ficar perdido, sozinho, abstraído até de mim mesmo, na solidão de meu canto - até minha angústia passar.

É uma sensação tolhedora, que pega desprevenido, de forma avassaladora que chega a me maltratar.

Então eu lanço nos ares, vencendo montanhas e mares, o meu atávico chamado.

Parece quase impossível, mas de modo sutil, quase incrível, meu grito é escutado.

E meu amor me responde, saindo do canto aonde se esconde - um canto também encantado.

Desde criança tenho o hábito do isolamento, sendo muito mais uma pessoa subjetiva, sem grandes momentos de expansividade. Esta natureza arredia faz com que eu sempre sinta necessidade de, às vezes inexplicavelmente, buscar ficar isolado em meu canto, até que perceba que minha tempestade interior amainou, fazendo-me sair da toca em que voluntariamente estava recolhido

Vale do Paraíba, noite do primeiro Domingo de Maio de 2009.

João Bosco (aprendiz de poeta)

May 02

Um Lenço para tuas Lágrimas

Um lenço para tuas lágrimas

 

 

A que sombrias lonjuras viajas em tuas horas caladas.

Em que ásperos recantos escondes a tua atávica tristeza, minha princesa?

Deixa que ilumine o teu rosto outra vez um largo sorriso.

Prá que tanto siso, se de teu olhar brilhante tanto eu preciso?

A vida nos cobra pesados tributos; obriga-nos a vestir de luto

Mas, no entanto, não devemos nos vergar pacificamente

E, como bois de carro, entregar a cerviz à canga obedientemente.

Dê-me teu rosto, para que enxugue as tuas lágrimas, minha querida.

E com meus beijos, com meu amor, tornar-te-ei mais leve o fardo da vida.

Poesia é sonho, bem sei. Sonhos não são concretos, nem nos dão o que é justo.

Digo-te, porém, com toda certeza, este mundo, sem poesia, perderia o resto que tem de beleza.

 

 

Saber viajar na fantasia, sonhar acordado, é essencial para que minoremos a nossa sensação de vagarmos sem rumo por esta inóspita moradia que é o nosso planeta. Sem o sonhar, que funciona como algodão protegendo choques de cristais, o nosso viver seria demasiado árido.

 

Vale do Paraíba, madrugada da última Quinta-Feira de Abril de 2009

 

João Bosco (Aprendiz de poeta)

Na Sacada do Tempo

Na Sacada do Tempo

 

 

Tanto em momentos tristes, como em momentos risonhos

Busco me escorar na sacada do Tempo, a esperar, do vento amigo, presságios de bom augúrio.

Ouço o cantar dos pássaros em minha janela; peço notícias dela, quase sem voz, num murmúrio.

 Este grande amor que tenho guardado comigo transborda, e suas águas encontram amparo na represa de sonhos

Construída pelo Castor de olhos mansos em que se travestiu meu amor.

E nessa represa tão calma, navega a caravela de minh’alma com uma carga indolor.

A carga que trago aqui dentro, é uma carga de sentimentos em busca do amor que mereço.

È formada de muito carinho, depositada na confiança e lastreada em cumplicidade.

É carga de reciprocidade, carga que o mundo dispensa, mas que para nós representa viver em plena verdade.

Quero este amor de novela, tarefa das mais complicadas; de velas soltas, enfunadas, navega minha caravela rumo ao seu endereço.

 

 

Há alguns anos tomei conhecimento da teoria do ganha-ganha, sistema em que não há disputas, sendo estas substituídas pela parceria. Achei maravilhosa essa forma de se viver e trabalhar pensando em ganhos conjuntos, numa superação do viver de forma egoísta. Para uma relação a dois, não há nada mais indicado. Amar é a melhor maneira de se praticar o ganha-ganha.

 

Vale do Paraíba, madrugada do primeiro Sábado de Maio de 2009

 

João Bosco (Aprendiz de poeta)

April 25

Universos Paralelos

Universos Paralelos






A constatação de que vivemos em mundos paralelos é facilmente notada no comportamento de uma criança. Basta prestarmos atenção ao alheamento infantil em relação às coisas e pessoas que estão em sua volta, de como ela, a criança, se desprega com extrema facilidade do mundo presente, embarafustando-se por labirintos da imaginação e universos de magia os mais variados. Tenho prá mim que poetas, escritores, pintores e uma infinidade de outros sonhadores, permeiam a sua existência num trânsito constante entre esses mundos, ora buscando refúgio neles, ora trazendo de lá obras que aqui, neste nosso mundo concreto de puro tocar e sentir, seria impossível produzir.

Podemos ainda acrescentar que, em maior ou menor grau, todos nós estamos mergulhados nesses vários universos que medeiam o nosso existir. O que muda é a capacidade que cada um de nós tem de perceber esse mergulhar e, além de perceber, lidar com leveza, de tal forma que esse mergulho metafórico nos propicie mais enriquecimento pessoal, fazendo-nos interagir ainda melhor com todos os seres sencientes em nossa órbita de atuação.

Quando a nossa consciência da existência desses outros universos é menor, ou quase nenhuma, o nosso viver se aproxima do automatismo, onde então passamos a cumprir as nossas tarefas sem sentir quase que nenhum prazer ou dor, praticamente nada entendendo das tarefas que estamos a executar, e nem qual o objetivo das mesmas, estágio de vivência em que experimentamos uma imensa indiferença, daquele tipo de indiferença que se assemelha a um sono em que não houve sonhos, ou ainda quando comemos alimentos em que o sabor quase não aparece, de tão insosso.

O migrar para os nossos universos de fantasia funciona como válvula de escape fundamental para que suportemos os desgastes em nossas atividades diárias, independente de que natureza elas sejam e da qualidade com que nos desincumbamos delas.

Podemos até reprimir as nossas excursões aos mundos mágicos existentes dentro de nós mesmos, impedindo-nos de sonhar e buscando somente trilhar um caminho constituído majoritariamente de regras a serem seguidas sem questionamentos. Todavia, não podemos esquecer que o preço a ser pago por tal forma de conduta, de viver acorrentado à pilastras de disciplina e de não se permitir sonhar é demasiado alto – geralmente cobrado nos cartórios de nossa maturidade com faturas de loucura e de insatisfação.





Vale do Paraíba, tarde do último Sábado de Abril de 2009



João Bosco (aprendiz de poeta)


April 24

Subvertendo Hamlet

 

 

Como falar se não conseguimos encontrar palavras adequadas para expressar um hiato que não é possível, na língua dos homens, explicar?

Há sim, um aproximar medroso, um tatear de felinos temerosos de se machucar com os próprios arranhões; um enclausuramento, um mitigar de emoções.

Na língua dos anjos não há hiatos. Em lugar desse acidentes gramaticais de tanto impacto, usa-se o hífen, sinal gráfico que não causa interrupções.

Não faça uso da impropriedade das rústicas palavras. Deixe tua alma banhar-se no mar de tuas lágrimas. Deixe-me ler o livro de teu olhar.

 

Deixe-me fazer de Hamlet, o soturno e indeciso príncipe da Dinamarca, uma nova e mais leve versão: Ser em você – esta é a grande questão.

Deixe-me compartilhar de teu fruto e dividir o teu beijo – Bendito seja! Atira aos porões as tuas pesadas vestes de luto e abre os portões de teu coração em festa.

Exila-te de tua lúgubre Elsinor. Em campos gelados, em momentos certos, apropriados, o Amor, embora combalido, sufocado, na primavera renasce – brota e se manifesta.

Podemos passar nossas vidas a chorar nossos sentimentos reprimidos, nossos amores não vividos, entre viver e vegetar. Podemos escolher entre amar e não amar – entre Realidade e Ilusão

 

 

Nunca devemos fechar questão a respeito de coisa alguma, dado que o que eu possa ver como azul-escuro pode ser visto pelo meu vizinho como uma tonalidade mais clara, dependendo de uma série de fatores. Quando dizemos que alguém tem este ou aquele comportamento, em realidade estamos a expressar nessa pessoa os nossos mais arraigados conceitos, ou ainda pior: projetamos nela o que gostaríamos que ela fosse. Minha avó materna tinha uma sentença bem cáustica a respeito de avaliações pessoais. Dizia ela “Gato preto do que usa, disto cuida”.

 

Vale do Paraíba, manhã da penúltima Quinta-Feira de Abril de 2009

 

João Bosco (Aprendiz de poeta)

April 22

Apanágio de Hasiah

O que quiseste dizer para mim, meu anjo guardião, quando em tenra infância apareceste-me de inopino, escoltado por Vésper, pela vez primeira?
Tuas brilhantes vestes de prata ofuscaram meus olhos, ainda não poluídos belo brilho enganador das coisas terrenas.
Fugi apavorado de tua presença, e de tua passagem, me lembro, carregaste o selvagem fogo, findando as minha penas.
Em momentos cruciais, senti tua forte mão impedindo a ação da morte, tornando menos áspera a minha estrada, ajudando-me a superar barreiras.

Hoje, já de cãs prateadas, revejo-te em minha memória, e regozijo-me por estar a me proteger em todas as horas, em todos os dias dessa minha longa e atribulada jornada.
Não te cansas, meu anjo Hasiah, e nem tampouco reclamas do imenso trabalho que cuidar de mim deve dar.
Minha rebeldia é tanta que a mim mesmo amedronta. São insatisfações tamanhas, que não me atrevo a listar.
O que era definido ontem, hoje nebuloso está;
Minha cabeça é um palco confuso, Urano, regente e protagonista, contracena com a Lua, escorpiana e arrivista – Ufa! Que peça mais complicada.


Dificilmente, em nossos verdes anos, projetamos atingir idades longevas. Quase sempre somos pegos de surpresa ao ver a brancura da neve pintar os nossos cabelos, geralmente acompanhada da perda de vigor física que teima em nos punir pela total falta de previdência no conduzir de nossas exitências. Resta-nos, nessa etapa de vida em que a maturidade deve imperar, lançar uma vista de olhos ao nosso passado e extrair dele as lições para tornar melhor o nosso presente. Carpe Diem.

Vale do Paraíba, tarde da Terceira Segunda-Feira de Abril de 2009

João Bosco (aprendiz de poeta)
April 17

Elegia a Zaratustra

Elegia a Zaratustra

 

Para que inutilmente, erguer minha veemente voz aos céus, se há muito tempo deixei para trás, como um incréu, a indigente muleta da fé?

Prefiro o intrépido galope do buscador agnóstico, atirando com gana aos inóspitos picos de meus dilemas, municiado das armas de minha razão.

Esta selvagem razão, companheira e conhecedora de meus problemas, sempre me diz: “não tema! Evites trafegar, como insensato, sempre na contra-mão”.

Não bradarei súplicas em busca de uma improvável clemência. Antes, com um temor previdente, atravessarei, respeitoso e silente, minha ponte de dúvidas – pé ante pé.

Em graves outros momentos, fustigado pelo açoite do feitor Sofrimento, cogitei de buscar dos homens, e também de Deus, um total isolamento.

Encontrei conforto na copa da árvore mais espinhosa, não em preces tristonhas, entoadas por gente vampira, bisonha: aquietei-me só –  e repousei no olho do furacão.

Não me enfurnei em grutas, nem em brenhas. Ao contrário: deixei que me caísse no lombo o peso da lenha, e quando não havia saída, lograva fugir da vida, escondendo-me em solidão, dentro de meu coração.

Não proponho qualquer absurdo: apenas insisto – carreguemos a nossa cruz, sem despejar em qualquer Jesus, a nossa pesada e indigesta carga de tormentos.

Quando a morte se aproxima para um animal já envelhecido, ele se deita e espera tranquilamente a sua hora chegar, quase sempre servindo de alimento para que outros animais dêem continuidade a vida. As árvores, menos dotadas de sensibilidade, também seguem processo semelhante. No entanto, nós os racionais humanos, insistimos em abrir uma guerra perdida contra a Natureza, segurando despojos que só a ela pertencem.

Vale do Paraíba, tarde da terceira Sexta-Feira de 2009

João Bosco (aprendiz de poeta)

April 16

Quando tu partires

Quando tu partires Apr 15, '09 9:51 AM
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Quando tu partires

 

 

Quando de tua partida, já de antemão sabida, nada me diga, seja ela- a tua partida - em morte, ou mesmo em vida ocorrida.
Use de tua costumeira clemência, aja com sábia prudência poupando-me da cruel penitência de tua indesejada despedida.
Címbalos e oboés uniram-se em festejo quando de tua chegada, então pedirei aos mesmos instrumentos que supram tua ausência, minha querida,
Falando-me de ti, já que tu mesmo não poderás me dizer nada. A música sim - esta falará de ti e de mim, e através dela, da nossa musica, a tua voz será sempre por mim ouvida.

Usarei de todas as minhas forças e pararei o relógio do Tempo, eternizando em minha mente aquele mágico momento
Em que adormecida, tua cabeça pousava em meu peito, o suave perfume de teus cabelos a embriagar minhas narinas, um quadro de impossível encantamento.
Tanto tu quanto eu, um dia teremos de partir. Certeza esta da qual nenhum de nós pode fugir, mas, aqueles ponteiros parados, janízaros de nossos sentimentos,
Serão testemunhas eternas do amor, do carinho, do fogo da paixão e da calma cumplicidade compartilhada. Então, meu amor, seja mentira ou verdade, não me fale de tua partida – esta espinhosa missão, que nos tira do centro, é exclusiva do Vento.


A vida é formada por bons e maus momentos, sentença que é um evidente truísmo. Assim mesmo, conscientes dessa forma em que a nossa vida se desenrola, temos dificuldade em aceitar situações que nos causam desagrado – a partida de um ente querido é uma dessas situações desagradáveis.


Vale do Paraíba, manhã da terceira Quarta-Feira de Março de 2009

João Bosco (aprendiz de poeta)

 

 

April 13

Homem ao Mar

Homem ao Mar Apr 13, '09 6:15 AM
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Meu carregamento de desespero induz-me a navegar num barco de sonhos por insulas encantadas.

Atraindo-me a ouvir canções de sereias - lindas as sereias e suas apaixonadas canções.

Canções ternas, capazes de encher de ternura os mais empedernidos e duros corações.

Corações de homens aflitos, como eu, órfãos de amores, de vida vazia, sem nexo, parada.

Adota-me, bela sereia! Faz de mim, marujo perdido, à deriva neste mar de incompreensão,

Teu ser mais querido. Apazigua com tua voz, doce como o mel, as feridas ainda candentes de meu coração,

E faz-me de novo mergulhar nas inebriantes águas tépidas do carinho, do amor feito com a força criadora da paixão.

Aí então, refém das algemas de teus encantos, levar-te-ei por todos os cantos, a provar de tuas mentiras-verdades, atracado no porto de tua Ilusão.

Sonhar, sonhar e me inebriar com teu canto, far-me-á finalmente secar este meu pungente pranto

Deixado como espólio indesejado de amores outros. De teu amor serei fiel depositário, guarda atento.

Protegê-lo-ei com o manto lúdico dos amantes, para que deste mundo externo nada venha de destoante

A tornar encrespadas as calmas ondas nas quais te refestela, serei de ti eterno sentinela, e afogarei em teus sargaços os meus navios de tormentos.

Não mais voltarei a Terra, aonde o desespero impera. Aqui, neste Universo de magia, farei de ti minha viva poesia – um beijo, um verso a cada instante.

Entrego em tuas mãos, minha sonhada sereia, o meu amor renovado, em um zodiacal anel incrustado – recolha-o e protege-o neste teu colo dourado - guarda-o em teu acalanto.

O sonho é o motor que impulsiona a vida, que dá cor a nossa existência, fazendo com que seja muito menos árido o nosso viver neste mundo em que a moeda dominante se denomina sofrer.

Vale do Paraíba, madrugada do segundo Sábado de abril de 2009

João Bosco

A Carroça

Somos como cidadãos de meia tigela, inermes, estupidificados.

A contemplar com olhos esgazeados,

Como se fôssemos impúberes, meninos abandonados,

Mulheres e homens a fazer-se de mulas, juntando latas e papéis nas ruas jogados.

Um dia causou-me tamanho espanto, hoje nem tanto, dado o inusitado ato tanto se manifestar.

Sem mais delongas vamos aos fatos: assustou-me de pronto ao ver numa tarde qualquer,

Ao invés de uma mula, em infamante mister, vi pelo peso encurvada, atrelada em uma carroça, uma estranha figura.

Meus olhos incrédulos, não quiseram acreditar: a realidade caiu-me na cabeça de forma contundente – como pedra bem dura.

Parei. Voltei e cheguei mais perto; queria ver para crer, como dizem ter feito, decerto, em outros tempos São Tomé;

Que naquela carroça não havia um animal. Era mesmo um ser humano - inacreditavelmente era uma mulher.

Precisamos nos questionar qual o tipo de sociedade que queremos legar para nossos filhos e netos, se usamos pessoas para fazer papel de animais debaixo de nossos complacentes narizes e olhares. Que tipo de  tipo de governantes escolhemos, capazes de organizar e  permitir que fatos tão ultrajantes se tornem corriqueiros em nossas ruas e avenidas. Não dá prá fingir que não somos responsáveis por acontecimentos tão deprimentes como este relatado acima: carroças tracionadas por gente. Acontecimentos incompatíveis com a dignidade que se requer para o vivenciar da cidadania, cujo registro nos fará ser execrados pelas futuras gerações.

Vale do Paraíba, madrugada do segundo Sábado de abril de 2009

João Bosco

April 09

Frente a frente

Frente a Frente Apr 9, '09 7:40 AM
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Um dia, disse-te, aconchegado ao quente afago de teu abraço: “-Depois de ti, não mais quero amar- tu és meu ponto final”

Expliquei-te depois, numa daquelas nossas longas conversas, frente a frente, despidos, literalmente, de qualquer inconveniente,

Que só tu, ouvinte e companheira, capaz de ouvir sem opor barreiras as mais estranhas narrativas, teria o meu amor – incondicionalmente.

Deste-me muito mais do que de mim recebeste. Através de ti, mesmo sem que tu percebesses, moldavas em mim a figura da parceira ideal.

 

Qual um Colombo intrépido, tu me fizeste atravessar o tenebroso oceano das dúvidas, a todo pano, mesmo temeroso, sempre em frente.

Tua poesia, prenhe de nostalgia, fazia-me sopesar o contraste de teus sonhos com tua férrea disciplina, paradoxo de bailarina – o que chamei de dicotomia.

Tuas histórias juntaram-se as minhas, ambos vindos de terras exóticas; tu vinda de estepes geladas de Europa; eu vindo de tórridas e sertanejas pradarias.

Teus versos são belos, plangentes; os meus são duros. Às vezes cáusticos, outras impertinentes; alguns são doces, tranqüilos – outros vorazes, indecentes.

 

Assim, meu amor, foi nosso viver na redoma, criada mais de contrastes, guardo de ti o melhor. De mim, nem sei o que tu guardaste.

Numa noite escura chegaste, sem prévio aviso, como se de improviso; em dia claro, promissor, meu amor - tu partiste. Hoje não sei de teus ares: guardo o parâmetro, o ideal - o resto? Procuro esquecer de pronto.

Nestes versos desajeitados, em exíguo espaço também, deixo bem claro, marcado, o quanto te quero bem. Trago-te sempre comigo, aqui bem perto do umbigo - tua imagem-tatuagem, quando procuro eu encontro.

Não cabe choro e nem vela, em troca assim tão marcante. Antes uma roda de coco, cantando até ficar rouco, o nosso amor louco e dissonante.

 

Nunca sabemos direito porque conhecemos alguém em nossas vidas. Nem mesmo a razão desse conhecer, no mais das vezes desavisado.  Fica para mima certeza de que o que vale a pena é a qualidade da vivência que tivemos com alguém que até ontem era um completo desconhecido e que amanhã não sabemos se ainda estará em nossas vidas.

 

 

Vale do Paraíba, manhã da segunda Quinta-Feira de Abril de 2009

 

João Bosco (aprendiz de poeta)

April 08

Volutas ao vento

 

Saudades do que não mais temos, daquilo que o tempo, este frio vilão, nos usurpou.

Nem bem sei do que me sinto saudoso, se nem mesmo a sombra de ti, como legado, me restou.

Sou como bebê sentindo saudades de leite, daquele leite mãe - leite que nunca mamou.

Saudade perversa que te transforma num vulto, fantasma que o vento em brisa levou.

 

Fazer poesia sofrida é mister deveras penoso, melhor lembrar de outros tempos, de tempos bem mais ditosos,

Tempos serenos, risonhos, opostos destes de agora, em que o sonho imperava, não havia bala nem susto, que mandasse a alegria embora.

Ai! Como é bom ser criança, suspiro aqui entredentes; não existe quase cobrança quando ainda adolescentes. Adultos, a coisa complica – tem de ser tudo na hora.

Não há rota de fuga segura, nada que a dor nos mitigue, que cure nossas agruras. Não é de bom tom ver um homem, desanimado, choroso.

 

Engulo as lágrimas a custo, afogando em mim este banzo, esta saudade teimosa - à qual boas vindas não dou.

Escancaro as janelas de meu coração para outros ares entrar, e deixo florescer, com o adubo desta paixão que acaba de morrer,

Um renovado amor por mim mesmo, imune às lufadas deste vento ingrato que leva em suas negras asas, volutas de um outro Ser.

Visto meu gibão de menino, monto o cavalo de meu destino e vou pelos calumbis da vida adentro. Entregar a rapadura, dito de minha terra,  não vou.

 

 

No Universo tudo é renovação. Munido deste axioma, extraio forças da mina inesgotável existente no interior de meu ser para enfatizar o dito popular dos sertões: “não entregue a rapadura”, que significa lutar sempre, mesmo quando tudo lhe parece adverso.

 

Vale do Paraíba, tarde da segunda Quarta-Feira, Abril de 2009.

 

João Bosco

 
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